segunda-feira, 25 de maio de 2020

Família

Já notei uma expressão de estranheza de algumas pessoas, e outras me perguntam curiosas quando eu utilizo a expressão "Família Kung Fu". Para muitos "Kung Fu" é um esporte, um "tipo de luta". Não podiam estar mais enganados. Kung Fu serve para muitas coisas, lutar é uma delas. Ouvi que Grão Mestre Moy Yat, meu Si Taai Gung, disse certa vez que : Kung fu é tão bom que serve até para lutar. E ainda assim, aonde entra essa "Família"? 

Aprender Kung Fu é um processo lento, é necessario paciência e investimento contínuo, e durante o tempo que você levará muitas coisas rão acontecer. Terão dias agradáveis, outros nem tanto, momentos de tranquilidade e de urgência, pois a vida é assim. É justamente a estrutura mais básica de grupamentos humanos que tem a maior capacidade de suportar todas as intempéries da vida: a família, e por isso que se aprende Kung Fu em uma.

Não é que a família seja uma estrutura plácida e sem conflitos, muito pelo contrário! A grande mágica é que por mais irritado que você esteja com seus pais ou irmãos eles não deixa de ser pais e irmão. O centro de um família Kung Fu é o Si Fu, e todos aqueles que se dispõe a segui-lo são irmãos.  A relação entre um Si Fu e seu To Dai ( aquele que segue um Si Fu) é o que caracteriza família Kung Fu, mas é a relação entre os irmãos, mais velhos e mais novos (Si Hing e Si Dai respectivamente), que a movimenta.

Para pertencer a família Moy Jo Lei Ou, que é a minha familia Kung Fu, não é necessário habilidade impressionante ou passar em testes especiais. É muito simples, basta querer ficar junto, seguir junto, e aprender no processo.

Claudio Teixeira, André Guera, Guilherme Farias, Thiago Pereira, Carmem Maris, Thiago Silva, Rodrigo Moreira(Eu), Alexander Lenart e Fabiano Granado.
Nessa foto estão nove de nós, nove discipulos da família Moy Jo Lei Ou falando sobre as melhores maneiras de nos mantermos unidos em tempos aonde um afastamento físico é importante. Temos vários encontros semanais de naturezas diferentes, alguns para para praticarmos outros para falarmos de temas diversos, esse em específico acontece todas as sextas para tratar dos cuidados com a família. Me arrisco a dizer que não estar fisicamente próximo de meus irmãos e Si Fu me deixou mais conectado com eles do que nunca, tanto em mente quanto em coração.

Dias bons e ruins vieram e passaram, e tantos outros estão por vir. Em alguns momentos estamos ligeiramente mais próximos em outros mais longe. Em certos momentos talvez até precisemos ficar mais afastados, já aconteceu comigo. Mas como dissse antes ai é que está a mágica: a família estará sempre lá.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

O que deixar pelo caminho...

Minha ultima postagem tem aproximadamente um ano, e se me perguntarem a razão de eu ter passado tanto tempo sem escrever eu não saberia precisar. Claro que eu poderia dar diversas razões reais para isso, mas eu sei que seria perfeitamente possível que meus relatos continuassem independente de todas essas justificativas. Retornei a escrever hoje pela mesma razão que comecei: Um pedido de meu Si Fu.

Alguns minutos antes das 21 horas do dia de hoje me reuni com meu Si Fu e mais dois irmãos Kung Fu, e passamos cerrca de um hora conversando. Em tempos aonde não devemos sair de casa podemos refletir sobre as coisas que realmente importam. A verdade é que podemos pensar sobre isso sempre, mas quando algumas de nossas supostas liberdades nos são tiradas a reflexão fica mais simples.
Não foi minha melhor captura de tela, mas ai estamos seguindo juntos. Si Fu na tela principal, eu no quadro superior na direita, meus irmãos kung fu Guilherme e Roberto na sequência.

Falamos sobre muitas coisas e no fundo o que foi dito não é importante, mas sim o que eu consegui apreciar desse momento. É dessa experiência, de apreciar o momento, que eu queria falar para vocês.

Pessoas buscam o caminho das artes marciais pelo condicionamento físico, pela disciplina, para se defender, para ter confiança ou outras tantas razões quanto o número de praticantes mais um. Um vez eu fui uma dessas pessoas, mas hoje minha idéia é completamente diferente. Eu trilho esse caminho para descobrir quem eu sou.

Desenvolver meu Kung Fu significa entrar em contato com minha própria humanidade, e para isso descartar as camadas de hábitos, manias, conceitos, julgamentos e qualquer outra idéia prévia que eu tenha sobre mim mesmo. Me reconhecer, com honestidade, nos meus piores e melhores momentos.

Sobre o tanto que falamos hoje a noite o que mais me marcou foi isso: Como nos livramos daquilo que não é importante, e realizamos as coisas para quais realmente damos valor. Se realmente queremos algo, e nem sempre é facil descobrir nossas prioridades reais, justificativas e desculpas são apenas camadas que usamos para encobrir nossas incapacidades.

Ao decorrer de nossas vidas aprendemos muitas coisas, criamos nossas identidades, costumes, rotinas e hábitos. Tudo isso é importante, mas chega uma hora que precisamos aprender a identificar o que  somos nós e o que é fachada. Em um primeiro momento amadurecer envolve aprender certas regras e costumes, mas depois envolve descobrir quais deles seguir e quais abandonar.
Kung Fu é viver, e praticar Ving Tsun não poderia ser diferente disso: Primeiro aprendemos uma série de movimentos e "técnicas" e depois devemos abandoná-los para que nossa expressão mais pura possa aflorar.
Acho que foi a última foto que tirei antes do afastamento social começar.


O Rodrigo da foto acima é muito diferente daquele de terno na foto de apresentação do Blog. Seis anos e muitas experiências separam ambos.  O Rodrigo de agora se percebe muito mais claramente que o outro, se aceita melhor e a partir disso se torna alguém melhor e mais humano. O carminho das artes marciais não é sobre ser melhor que outros, é sobre ser melhor do que você mesmo era a momentos atrás.